Eu não tinha nada pra fazer mesmo, tudo estava um tédio inescrupuloso; claro, sentada quase que um dia inteiro de frente pra um computador ultrapassado de design nada agradável aos olhos esperando algum cliente chegar pra eu poder desempenhar meu patético papel de imbecil prestativa, ah, e esperando também a chuva já que o céu parecia estar pra isso.
Engano, a verdade é que nada estava para nada, era um daqueles dias de expectativa furada, ansiedade infundada. Nada fluindo, estagnação total.
Amontoei uma porção de “quase” na minha cabeça e fui terminando um dia decepcionante.
Passou uma mulher toda apressada mexendo na bolsa falando no celular e olhando o sinal pra atravessar a rua, uma caneta caiu; minha primeira vontade foi de correr pegá-la, quem sabe devolver se desse tempo, mas fiquei parada observando como essa vontade não surgia nas pessoas e como foi crescendo em mim uma vontade de observar o destino daquela caneta. Ninguém olha mesmo pro chão, imaginem se pisam na merda... eu me preocupo muito, por isso sempre olho pro chão, ou então é por que ando amando o movimento dos meus pés; ninguém olha mesmo, daí pisaram em cima, uma correndo, fez barulho e tudo, um casal abraçado, eles pisaram juntos, observei bem. Outro pisou sentiu não ser o chão então olhou, era uma caneta, tava toda quebrada, antes fosse uma nota de dois reais semi rasgada pisada e molhada (eu pensei que ele pensou isso, pela cara que fez). A carga estava intacta, concluí.
Não me lembrei de ao sair verificar se os restos da caneta ainda estavam por ali. Também estava com pressa como todos e se olhei pro chão foi pela velha mania de morrer de medo de pisar nas merdas.